domingo, 19 de novembro de 2023

Como ser o melhor em tudo


Depois que acabou o turno, ele voltou a ser uma pessoa comum, pensando em coisas comuns. Registrando o ponto, observou as pessoas eufóricas com o fim de semana. Foi devagar para a catraca da saída, entrou no transporte coletivo em silêncio, observando o estabelecimento se distanciar. 
Durante o turno, o tempo é seu inimigo; os itens na esteira são seu objetivo. Tudo precisa estar em seu lugar da melhor forma possível, milimetricamente em suas posições. Na velocidade certa, dá para produzir mais do que nos outros turnos. Sempre pronto para assumir o posto em qualquer etapa da produção, seu ponto forte era a embalagem, um exímio conferente. Sua visão periférica conseguia contar os volumes de caixas com muita precisão. Ainda com a cabeça no serviço, conferiu se não deixou algum ventilador ligado ou uma ferramenta fora do armário. Como sempre, acredita que seguiu todos os procedimentos à risca, divertindo-se ao repetir a cena na mente, até sair do setor e deixar a empresa lá. Conforme o coletivo avançava até o seu destino, uma solidão silenciosa parecia circular sua alma, em busca de uma fresta.
Andou cabisbaixo do ponto até sua casa. Apesar do agito rotineiro da avenida em uma sexta-feira à tarde ser contagiante, não tinha pressa nenhuma para chegar, a cada passo um peso era adicionado em sua áurea.
Com a mão na maçaneta, suspirou um lamento lento. As longas horas longe do trabalho repetitivo eram um tedio, um vácuo sem sabor permeando o espaço entre os mundos. "O que fazer agora?" pensou quando passava pela porta. O hábito era tão forte que detestava os dias de folga, principalmente os que era obrigado a folgar. Estava acostumado a trabalhar até a exaustão, avançando a madrugada. As horas extras nos fins de semana eram o que motivava a voltar para casa.
— Oi, mãe!
— Chegou mais cedo hoje, filho! Que bom! Nossa, você está com uma cara de quem está cansado.

Os outros moradores da casa eram todos membros da família, parentes de sangue, que não compreendiam sua pesada carga horária. Eles não podiam entender, não era pelo dinheiro, mas pelo trabalho, para se sentir útil. Depois do banho, sentou-se na cama. O travesseiro cheirava a sol; sua mãe tinha lavado todas as roupas de cama, tudo perfeitamente limpo e agradável. Procurou algum significado nisso tudo e não encontrou, como se tivesse esquecido o que estava pensando, ficou ali parado, travado durante um tempo sem pensar em nada. "O que fazer? E agora?" essa pergunta invadia sua mente constantemente desde que chegara em casa.
Ligou sua televisão pendurada na parede; extra fina, parecia um quadro de 40 polegadas. Rodou todos os 90 canais procurando por algo interessante, mas tudo era oco e sem sentido. Procurou o controle de seu novo videogame; que ainda estava pagando, sem sucesso no guarda-roupa. Buscou nas gavetas da cômoda. Antigamente, os controles tinham um enorme fio conectado ao console, o que facilitava encontrá-los, além de não precisar de pilha ou bateria. Isso não parecia certo; era trocar um pelo outro, e no fim, o resultado era o mesmo. "Fio ou baterias? Se tivessem todos ordenados numa caixa bem fechada num palete lacrado e etiquetado, daí sim faria todo sentido", pensou ele, lembrando com saudades da rotina diária.
Lembrou que tinha emprestado o controle para o seu primo mais novo, um guri de apenas 10 anos. A felicidade que ele sentiu parecia tão legítima que era invejável. Em pé de frente à cômoda, percebeu que a vida perdeu seu significado na imensidão vazia do nada. Desde que comprara esse videogame, não tinha usado muito, além do jogo de futebol (que era tão realista que perdera a graça). Não conseguia ter paciência para começar o outro jogo de aventura com um milhão de opções de armas e 50 finais diferentes, tantos personagens e opções de jogos que dava preguiça até de imaginar. 
Ali não era o seu lugar; o seu quarto não era o seu posto de trabalho. Na verdade, tudo era uma distração frustrante, nada daquilo parecia ter sentido. Tudo parecia tão tolo e insuficiente. Uma angústia tomou conta do seu coração; detestava não estar produzindo, era um inútil longe da firma. Como ficar um dia inteiro sem embalar uma única peça? Sem conferir uma caixa? Como viver sem uma função específica designada pelo procedimento operacional padrão?
Ajoelhou-se ao lado da cama, afundou a cabeça na cama e começou a chorar. Sentia falta do uniforme com cheiro de graxa, do ruído das máquinas, a fumaça das empilhadeiras. Tudo que ele queria era estar lá, trabalhando. Não era pelo dinheiro; era pelo fato de fazer algo importante, mesmo que não fosse tão essencial assim. Desde que fosse uma função na linha de montagem, já era suficiente. Seus longos e difíceis dias de folga eram uma verdadeira tortura.
Levantou do chão com o ruído de seu telefone; o barulho ecoava por todo o quarto. Ao atender, enxugando as lágrimas dos olhos, percebeu uma voz familiar
— Boa noite! Posso falar com o Marcos?... Alô?
Era uma voz rústica distorcida pelo cigarro, ele sabia quem era, mas não tinha certeza, poderia ser qualquer pessoa.
— Sim, aqui é o Marcos!
Talvez fossse engano ou alguma cobrança ou… talvez fosse uma pessoa mais próxima.
— Oi Marcos, tudo bem ? Sou eu!!! 
De repente seus neurônios trouxeram a imagem do interlocutor num piscar de olhos.
— Oi, eu estou bem — respondeu Marcos sentindo um calor no peito e o sorriso se estendendo de um canto ao outro da boca.
— Marcos, chegou bem em casa?
— Sim, mas é estranho voltar tão cedo — O sorriso permaneceu, sentiu uma dor no braço esquerdo, uma sensação de calor começou a se espalhar no peito, seguida por uma leve tontura e um suor frio, estava completo novamente.
— É assim mesmo, depois você acostuma… eu realmente precisava dessa folga, aproveite para descansar, principalmente por…
— O seu descanso é merecido, se eu estivesse na sua posição eu nem sei o que faria, como você pode tolerar certos funcionários?
— Ser supervisor tem seus desafios.
— É eu imagino como deve ser… é… hum…
Mesmo desejando expressar prontidão, Marcos encontrava dificuldades para falar devido a palpitação na garganta. Respirou e pensou no tamanho do privilégio que era receber uma ligação dessas, tinha que deixar claro a disposição de fazer horas extras no fim de semana.
— Que bom que você me ligou… por que eu…
Marcos foi interrompido pelo seu chefe.
— Estou ligando para avisar que a empresa ficará fechada por tempo indeterminado devido à pandemia. Você está a par da situação global, certo?... Marcos? Está ouvindo?... 
O silêncio misterioso pré supôs uma concordância.
— Então não há previsão de retorno, todos os funcionários devem ficar em casa. Era para termos parado na semana passada, mas tínhamos um prazo apertado para cumprir, porém agora a empresa será penalizada se não fechar as portas … alô ?... Marcos? Alô… Você está me ouvindo?

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Harmonias Imortais: Memórias Melódicas que Transcendem o Tempo


Quando ouço aquela música...
A melodia faz sentido, é como se eu estivesse vivendo pela primeira vez. Repito incessantemente a mesma música, como se as notas traduzissem um momento da vida. É como se fosse uma foto em forma de áudio, repleta de sentimentos, aromas e paixão.

Parece que volto à minha infância, num dia de verão, sem nenhuma preocupação. Posso sentir o ar gelado da manhã, o vento fresco no rosto e minhas pernas doloridas de tanto pedalar.

Também há aquela música agressiva que me lembra da dor e da humilhação que já enfrentei.

Cada momento da vida é eternizado por uma música diferente, e ouvi-las novamente é como voltar no tempo, retornar àquele instante específico da vida. No entanto, há um problema nisso tudo: a memória é plástica, moldável como uma gelatina que se deforma quando colocada no porta-malas de qualquer carro.

Na primeira vez que ouvimos uma música, sentimos uma onda de nostalgia, uma viagem no tempo. Mas na quarta ou sexta vez, ela reescreve a memória, reorganizando as lembranças e quase apagando aquele momento especial.

É por isso que é tão importante explorar novos sons, diferentes ritmos, buscando trilhas sonoras de filmes ou jogos. Algumas músicas capturam sua vida em um momento específico, sintetizando todos os sentimentos e cheiros em alguns acordes ou frases. A música perfeita é aquela que consegue traduzir o que você sente na alma.

Continue explorando e apreciando a mágica das músicas, pois elas têm o poder de despertar memórias e emoções únicas.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Sinto F...

Sinto falta da chuva torrencial, aquela que cai sem piedade durante 40 minutos e deixa tudo encharcado. Sinto falta de tremer de frio molhado, enquanto o vento cortante assovia nos meus ouvidos. É irônico, pois antes da chuva, eu reclamava do calor insuportável de 37° graus.

Sinto falta de não ter disponível ônibus, ou metrô, ou até mesmo a rua, pois a chuva do final da tarde simplesmente levava tudo embora, inclusive a dignidade e a energia elétrica dos semáforos. E aí eu ficava sem saber a que horas chegaria em casa, pois chovia em 40 minutos o esperado pelo mês inteiro. Todo ano é assim, mas eu não faço ideia de quem calcula essas médias.

Sinto falta de... Na verdade, não sinto falta de nada.

Mas sinto falta da minha família que ficou em São Paulo e lamento que eles não saibam o quão confortável é viver em uma cidade limpa e organizada, a apenas duas horas de distância de Curitiba.

domingo, 5 de março de 2023

A construção da Liberdade

Qual é o valor da liberdade? Quanto custa?

Para um presidiário, a liberdade tem um valor diferente do que para uma moça de 15 anos trancafiada em seu quarto, emburrada porque seus pais não deixaram ela viajar com as amigas - na verdade, eles apenas não deram dinheiro para a moça fazer o que quisesse. Ela se esforça para convencer seus pais, fazendo drama sentimental, buscando argumentos rebuscados e usando uma boa lógica digna de um discurso vencedor de debates políticos, mas de nada adianta. O que resta é lamentar sua falta de liberdade.

Eu sempre tive o mesmo problema com a liberdade, meus pais sempre foram muito rígidos na criação, principalmente com a limpeza, todos os dias era dia de lavar alguma coisa, muitas vezes minha mãe que definia as escalas de qual filho limparia o que, nem sempre ela seguia uma lógica justa, também me sentia preso e injustiçado, principalmente quando era um sábado a noite e tinha que lavar o quintal dos fundos, lá tinha o pequeno banheiro difícil de lavar, a água sempre escorria na direção oposta do ralo.
Quando minha irmã mais velha começou a trabalhar eu herdei todos os serviços que ela fazia em casa, ela agora era livre e eu privado de liberdade.

Foi horrível, mas sobrevivi, quando finalmente fiz 18 anos na primeira oportunidade de me livrar dos meus pais eu fui sem exitar, ser livre pra fazer o que quiser.

Então fui servir o exército, pensei que tinha conseguido ser livre. Mas tinha uma maldita corneta que tocava as 05:30, tinha um maldito uniforme que tinha que estar bem arrumado e um monte de regras para seguir, que saudades de casa.
As punições para descumprimento de qualquer regra era ficar detido numa minúscula sela, ou acumular escalas de limpeza, depois de lavar alguns pátios e banheiros aprendi a seguir todas as regras à risca. Como soldado eu estava menos livre do que em casa, mas não desisti, meu orgulho me impedia de voltar para casa com o rabo entre as pernas, acabei me acostumando, nunca fazia o que realmente queria, nas minhas folgas eu tinha uma fração de liberdade, mas ainda não era isso, toda minha vida era exprimida pelos outros compromissos.
Não foi tão ruim assim pelo menos os treinamentos de tiro me ajudariam num futuro próximo a conseguir um emprego de vigia noturno e uns bico de segurança.

Foi nessa época da juventude que eu entendi que ninguém é livre pra fazer o que quiser, isso não existe, adultos estão sempre trocando seu tempo por dinheiro por sobrevivência, pouquíssimas pessoas aproveitam a vida fazendo o que querem, a maioria fazem o que precisa ser feito.

Depois que me livrei do exército voltei para casa dos meus pais, uma prisão familiar e confortável, mas ainda não podia fazer o que quisesse. 
Como um jovem adulto me obriguei a trabalhar. Quando menos percebi estava preso numa rotina estranha, dormindo de dia, trabalhando de madrugada como segurança noturno, como um vampiro eu não via mais a luz do dia, até nos dias de folga passava o dia todo dormindo e a madrugada toda acordado assistindo TV ou jogando videogame, nem parecia a vida que eu tinha planejado quando criança, aliás não era uma vida, dois anos de exército eu continuava o mesmo de sempre, eu estava mais preso do que nunca, pensei que a vida de adulto fosse melhor que isso, eu vivia seguindo os fluxo.

Cansado dessa rotina entrei num financiamento estudantil, o governo financiaria minha formação superior, talvez esse fosse o melhor caminho (Devo para o governo até hoje), estudar para ser alguém. Mas quantidade de matérias e exigência para se provar que sabe alguma coisa sobre gestão administrativa, me fez pensar se eu não estava simplesmente trocando de uma prisão para outra.

Eu poderia curtir como os outros idiotas alcoólatras largados pelos quarteirões em volta da faculdade, mas o esforço que eles tinham que fazer para compensar o tempo perdido para não reprovar em alguma matéria não valia a pena; a vontade de encher a cara e curtir era grande, mas maior ainda era a vontade de terminar essa maldito curso, não é muito inteligente levar 6 anos para concluir um curso de 4 anos.

Da faculdade para o serviço, do serviço para casa, dormia o dia inteiro até a hora de ir para a faculdade novamente. Isso é liberdade?
Precisava do diploma do nível superior e também precisava trabalhar para me manter no curso, (e pagar o financiamento do meu carro semi-novo), o resto do tempo que me sobrava eu dormia.

Porém tinha uma moça chamada Jéssica na minha sala, ela demonstrou interesse em mim, de início pensei que fosse só para conseguir nota nos trabalhos, mas ela meio que insistiu em ter minha companhia. Como um jovem macho da minha espécie não podeira recusar para uma fêmea saudável interessada, acabei cedendo minhas horas de sono para Jéssica.

O que era para ser um bom relacionamento se tornou mais uma outra prisão, eu era um escravo dos desejos dela, todas as suas vontades, todas as necessidades delas eram minhas prioridades, em troca de que? Ela era muito bonita, linda, quase perfeita, mas Extremamente autoritária, egoísta e manipuladora. Eu já nem sabia mais o que era dormir, minha vida era dela, eu daria a vida por ela. Só percebi o quanto idiota fui quando vi ela me traindo com um outro rapaz, no pátio da faculdade, foi terrível, meu coração partiu no meio, eu jurei a mim mesmo que nunca iria me apaixonar outra vez, a ressaca dessa paixão me deixou mais anti social do que eu era antes.
Alguns meses depois e muitas lágrimas, durante a aula senti uma forte dor de cabeça, fui obrigado a pedir socorro na enfermaria, lá conheci uma garota linda, ela cursava enfermagem, nunca fui tão grato por ter uma dor de cabeça, tive sorte dela ter se apaixonado por mim também, logo começamos a namorar e a vida começou a fazer sentido, ela me deixava tranquilo e relaxado, me sentia livre quando estava perto dela.

Tentei explicar para ela sobre meus ideais de liberdade, ela só dizia que as pessoas tinham que sobreviver fazendo o que for necessário, tudo estava incluído no necessário, até mesmo qualquer coisa como não fazer absolutamente nada.
Graças a ela a vida ficou mais doce, confortável, a falta de liberdade não parecia afetá-la, pelo contrário, ela estava muito feliz com sua rotina, principalmente por que eu fazia parte dela. Como pessoas tão diferentes podem ser tão iguais?

Tentando retribuir toda a felicidade que ela me trazia resolvi realizar o sonho dela de ser mãe, na formatura ela estava com aquela barrigão de grávida. Foi engraçado. É incrível como ela não parecia estar presa em nenhum contexto da sua vida, era como um pássaro livre em pleno vôo.

Casámos e fomos morar juntos nos quartos dos fundos da casa dos meus pais, não é o ideal mas era o que eu poderia fazer. Daí eu abri mão totalmente do que eu pensava que era liberdade e me dediquei totalmente a viver pelas duas, minha esposa e minha filha. 

Para dar uma vida melhor para elas tive que vender muitas horas de trabalho, tive que arriscar a vida, os empregos que pagam mais são aquelas que você tem a chance de morrer. 

Mas eu não morri, depois de tanto tempo me privando de fazer o que desse na telha, consegui, não tenho um minuto de liberdade, estou mais preso do que nunca, estou vinculado por vontade própria a um destino, a minha família.

Um poeta disse uma vez se sua mente está livre você não enxerga os muros, minha verdadeira liberdade e me doar para minha família e servir minha esposa e na medida do possível satisfazer minha filha manhosa de 15 anos que está aos prantos debaixo da coberta se lamentando por não ter viajado hoje.

Ela ainda não entende o que eu talvez só compreenda agora, algumas coisas são muito caras, outras não tem preço, cada momento ruim da vida me trouxe até aqui, cada choro e decepção me ensinou alguma coisa, eu tive muita sorte de encontrar alguém que também me queria bem.

Liberdade é saber escolher as responsabilidades que você terá que suportar. 

Para ela é fácil dizer que os outros pais deixam e dão dinheiro quase que à vontade para suas amigas se divertirem. Mas elas não são livres, porque seus pais também não são, eles nem sabem o que é isso, vivem a vida sem saber o que estão fazendo.










quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Desenvolvimento Pessoal 1

 É na dificuldade que a gente se encontra. É no processo que a gente se desenvolve.


Era isso que dizia a tatuagem na perna dele, não sei bem o que ele quis dizer tatuando isso na panturrilha.


O cara deve ser um jogador de futebol, ou um adepto a leitura de autoajuda. 


O que esse cara entende por processo? 

Será que é uma autorreferência à própria tatuagem? 

Será que é mais difícil tatuar aquela parte da perna? 

Talvez ele mesmo tenha feito sua própria tatuagem, por isso a dificuldade, o significado é muito mais ambíguo do que parece.


É claro que na dificuldade, o fulano qualquer se vê diante se uma encruzilhada, ou ele desiste e volta pra trás, ou encara, ao enfrentar esses problemas ele pode ter sucesso ou fracassar, é óbvio, diante de tantas opções pior caminho é ficar parado e não fazer nada, mesmo parado o mundo a sua volta está se movendo e vai te carregar adiante. Não decidir acaba sendo uma escolha.


De qualquer forma a dificuldade leva um pedaço seu, Lima uma aresta da sua vida, às vezes um pouco mais do que deveria. Dói.

Logo no final de um período difícil você já não é o mesmo. 

Claro, essa é a vida tentando te forçar a ser alguma coisa que você não é para ser comum aos outros que já passaram por isso.

Talvez você se encontre diferente, sem um braço, com o senso de humor diferente, menos tolerante, o processo amadureceu o fulano.


Não, acho que ele deve ser jogador de futebol, por isso tatuou na perna, pela idade não é profissional, deve ser aqueles jogadores de fim de semana que jogam todos os fins de semana….


sábado, 14 de janeiro de 2023

Perguntas?

… Já está chegando a hora de ir trabalhar.
— é mesmo por que?

— Por quê?! Esse é o meu horário.
— Não é porque você tem que ir agora. Porquê trabalhar?
— porque sim, por ser necessário, tenho família, é o meu dever, se eu não fizer isso nem sei…
— O que?
— Não sei, alguma coisa eu teria que fazer para gerar uma renda.
— Se não fosse sua família você não teria que ir trabalhar agora?
— Com ou sem família é essa remuneração que me mantém. Se eu fosse sozinho, sem família talvez teria outras opções na manga.
— Então você só faz isso por dinheiro?
— Sim, ninguém trabalha de graça.
— Então você não gosta do seu trabalho?
— Gosto o suficiente para fazer isso todos os dias pelo salário que me pagam.
— Porque você não faz outra coisa que te dê mais dinheiro? Já que é pelo salário você pode fazer qualquer outra coisa por dinheiro, sei lá, talvez vender sua dignidade?
— Não, isso nem tem valor de mercado.
— Sua dignidade não vale nada?
— Claro que vale alguma coisa, mas quem vai dar esse valor para uma coisa abstrata? Ou um sentimento? Qual o preço de se sentir feliz? Não dá para vender essas coisas como dignidade.
— Todo tem um preço, se vale alguma coisa dá pra comprar.

— Pra que me encher saco com essas perguntas óbvias, sendo que você sabe a resposta da maioria delas.
— Perguntas nunca são óbvias, talvez as respostas sejam, isso não significa que elas não precisam ser feitas.
— Tem perguntas que não devem ser feitas.
— Tem perguntas, que não devem ser feitas?
— Você acha que não?
— É óbvio que não, o mundo a sua volta existe da maneira que está porque alguém fez uma pergunta, uma pergunta burra, estúpida, inocente, óbvia, irritante, irrelevante e fácil, perguntas que nos trouxeram até aqui esse momento único na era da humanidade. Perguntas existem e pronto. Esse é o fato que nos diferencia dos outros animais. Perguntas profanas e absurdas que promoveram rupturas, boas e ruins, mortes e salvação, pecado e absorvição, corrigindo ou condenando, passado, futuro, pessoas e nações, o prazer da resposta é todo seu, minhas perguntas não são óbvias, você pode responder da maneira que quiser, o limite é todo seu.
— Tudo bem, ficou bem claro agora.
— As perguntas são libertadoras, elas são os cavaleiros da curiosidade, mensageiros da criatividade.
— Muito poético.
— Percebe que concordamos, então vou lhe repetir uma pergunta, vamos tentar recomeçar. Porque você trabalha tanto? 

— Para você enfiar essa resposta toda no meio do seu Cú e parar de me encher o saco.

Assim cada um seguiu seu caminho.

 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

A inutilidade do guarda-chuva na Sociedade contemporânea

Guarda-chuva é um dos objetos mais inútil, parece óbvio seu propósito, porém todos os ônus de carregar um guarda-chuva não compensam seu pequeno benefício.

Fabinho sabia muito bem disso, ele que desenvolveu essa lógica fantástica. Qualquer guarda-chuva te oferece meia proteção, as pernas sempre ficam molhadas, dependendo do tipo de chuva só a cabeça fica seca, sem contar que se for uma tempestade com ventos acima de 30 km/h seu guarda-chuva vira do avesso. (quem se arrisca sair numa tempestade?)

Debaixo de uma árvore observando a chuva molhando o campinho de futebol; onde passará por algumas frustrações, não é fácil ser péssimo no esporte em que todo mundo joga razoavelmente bem. Fabinho acumulava coragem para encarar a chuva, sentia um tipo de controvérsia científica, na teoria a ausência proposital do seu guarda-chuva era um benefício, na prática não queria se molhar. 
Faltava coragem para o teste definitivo, no caminho da escola até ali conseguiu se abrigar debaixo dos beirais ou toldos dos comércios do bairro, mas o campinho de futebol era a maior área aberta, ele teria que atravessar andando, pois correr na chuva é errado, você se molha mais rápido.

A lógica de Fabinho era quase uma fórmula matemática:

Quanto maior o guarda-chuva, maior o incômodo de carregar mais um objeto que não cabe na mochila, não cabe dentro da maioria dos armários escolares, e é maior a chance de você perder ele. Se você optar por um guarda-chuva pequeno, menos proteção ele te oferece, logo mais inútil é.

As folhas da árvore começavam a pingar, a chuva estava ficando mais forte, os raios assustavam com seus estrondos, o arrependimento de não ter levado o guarda-chuva só não era maior porque Fabinho sabia onde estava seu guarda-chuva, sabia que assim não perderia ele dessa vez. Ao longo da sua pequena vida Fabinho já tinha perdido muitos guarda-chuvas, o medo de perder mais um obrigou a criar um teoria sobre a inutilidade do guarda-chuva ao longo da sociedade contemporânea. 

 Ao carregar um guarda-chuva os transtornos estão presentes em 100% do tempo, chovendo ou não, é um transtorno tão grande que quando você se livra dele sente um alívio incomparável, tanto que seu subconsciente apaga essa informação da sua memória, isso é involuntário, é o instinto humano.

Mesmo que algumas poucas pessoas do mundo gostam de se torturar lembrando de pegar o guarda-chuva molhado dentro de um balde ou pendurado em qualquer outro lugar, é muito comum esquecer esse objeto inútil em qualquer lugar.

Fabinho começou sua marcha andando numa velocidade rápida mas não correndo, as gotas grossas molhavam muito de uma vez só, seu óculos ficou encharcado atrapalhando a visão. No meio da travessia começou a calcular as consequências de chegar em casa completamente molhado, a essa altura a chuva estava muito intensa, era aquele tipo de chuva que nem mesmo de guarda-chuva dava para encarar.

Na outra ponta do campo tinha uma enorme poça d'água, se esticou todo para pular, mas com a visão comprometida pelo excesso de humildade no rosto, enfiou o pé direito com tudo dentro da poça, depois disso ignorou qualquer teoria e seguiu seu instinto e correu rápido para casa.

Chegando em casa completamente molhado foi tirando o tênis e a meia, logo sua mãe gritou de algum lugar da casa.

— Fabiano Correia!!! Cadê seu guarda-chuva novinho!!!

Ele olhou para dentro procurando sua mãe, mas a cozinha estava desabilitada.

— Tá tudo bem mãe, eu só esqueci meu guarda-chuva.
— O que ?!!!! - a Voz ecoou pela casa, era óbvio que ela estava na parte de cima aquele Confortável sobrado. —Outro guarda-chuva perdido meu filho, eu não aguento mais comprar guarda-chuva para você, não é possível uma coisa dessas.

Fabinho subiu a escada até encontrar sua mãe, ela numa cara espanto, soltando fumaça pelo nariz.

— Você quer pegar uma pneumonia, Fabiano??!!!
— Não mãe, você não entendeu, esqueci o guarda-chuva em casa, não perdi nada.
— Mas você está todo molhado!
— Só que eu sei onde está o meu guarda-chuva 
— Sabe mesmo?! - 
— Sei sim está no meu guarda roupas.
— Então vai lá e pega ele, traz aqui para eu ver.

Fabinho entrou no seu quarto tremendo de medo. E se ele tivesse levado para escola? E se o subconsciente tivesse apagado essa informação, ele perderá outro guarda-chuva? De novo?

Abriu o guarda-roupa e não viu nada além de roupas, procurou nas gavetas, vasculhou no fundo e nada.
Pensou em pular pela janela e fugir de casa para não enfrentar a fúria de sua mãe, procurou pela segunda vez e nada, realmente perderá o outro guarda-chuva.

— Não encontrou?! - falou a mãe.
— Eu tinha certeza que guardei aqui, eu não perdi outro guarda-chuva, alguém mexeu nas minhas coisas.
— Hoje de manhã coloquei ele dentro da sua mochila.
— O que?
Fabinho foi correndo do quarto para o corredor, desceu a escada e avançou na mochila molhada. Abriu o zíper e viu aquela coisa escura toda enfiada apertada entre os livros, o tempo todo esteve com ele desde que saiu de casa pela manhã. Isso derruba sua teoria, isso mudo tudo, nada mais fazia sentido ele tinha sido traído pelas próprias idéias.

— Está aí! Agora vai tirar essa roupa molhada e tomar um banho, hoje você está de castigo sem vídeo game.