sábado, 14 de janeiro de 2023

Perguntas?

… Já está chegando a hora de ir trabalhar.
— é mesmo por que?

— Por quê?! Esse é o meu horário.
— Não é porque você tem que ir agora. Porquê trabalhar?
— porque sim, por ser necessário, tenho família, é o meu dever, se eu não fizer isso nem sei…
— O que?
— Não sei, alguma coisa eu teria que fazer para gerar uma renda.
— Se não fosse sua família você não teria que ir trabalhar agora?
— Com ou sem família é essa remuneração que me mantém. Se eu fosse sozinho, sem família talvez teria outras opções na manga.
— Então você só faz isso por dinheiro?
— Sim, ninguém trabalha de graça.
— Então você não gosta do seu trabalho?
— Gosto o suficiente para fazer isso todos os dias pelo salário que me pagam.
— Porque você não faz outra coisa que te dê mais dinheiro? Já que é pelo salário você pode fazer qualquer outra coisa por dinheiro, sei lá, talvez vender sua dignidade?
— Não, isso nem tem valor de mercado.
— Sua dignidade não vale nada?
— Claro que vale alguma coisa, mas quem vai dar esse valor para uma coisa abstrata? Ou um sentimento? Qual o preço de se sentir feliz? Não dá para vender essas coisas como dignidade.
— Todo tem um preço, se vale alguma coisa dá pra comprar.

— Pra que me encher saco com essas perguntas óbvias, sendo que você sabe a resposta da maioria delas.
— Perguntas nunca são óbvias, talvez as respostas sejam, isso não significa que elas não precisam ser feitas.
— Tem perguntas que não devem ser feitas.
— Tem perguntas, que não devem ser feitas?
— Você acha que não?
— É óbvio que não, o mundo a sua volta existe da maneira que está porque alguém fez uma pergunta, uma pergunta burra, estúpida, inocente, óbvia, irritante, irrelevante e fácil, perguntas que nos trouxeram até aqui esse momento único na era da humanidade. Perguntas existem e pronto. Esse é o fato que nos diferencia dos outros animais. Perguntas profanas e absurdas que promoveram rupturas, boas e ruins, mortes e salvação, pecado e absorvição, corrigindo ou condenando, passado, futuro, pessoas e nações, o prazer da resposta é todo seu, minhas perguntas não são óbvias, você pode responder da maneira que quiser, o limite é todo seu.
— Tudo bem, ficou bem claro agora.
— As perguntas são libertadoras, elas são os cavaleiros da curiosidade, mensageiros da criatividade.
— Muito poético.
— Percebe que concordamos, então vou lhe repetir uma pergunta, vamos tentar recomeçar. Porque você trabalha tanto? 

— Para você enfiar essa resposta toda no meio do seu Cú e parar de me encher o saco.

Assim cada um seguiu seu caminho.

 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

A inutilidade do guarda-chuva na Sociedade contemporânea

Guarda-chuva é um dos objetos mais inútil, parece óbvio seu propósito, porém todos os ônus de carregar um guarda-chuva não compensam seu pequeno benefício.

Fabinho sabia muito bem disso, ele que desenvolveu essa lógica fantástica. Qualquer guarda-chuva te oferece meia proteção, as pernas sempre ficam molhadas, dependendo do tipo de chuva só a cabeça fica seca, sem contar que se for uma tempestade com ventos acima de 30 km/h seu guarda-chuva vira do avesso. (quem se arrisca sair numa tempestade?)

Debaixo de uma árvore observando a chuva molhando o campinho de futebol; onde passará por algumas frustrações, não é fácil ser péssimo no esporte em que todo mundo joga razoavelmente bem. Fabinho acumulava coragem para encarar a chuva, sentia um tipo de controvérsia científica, na teoria a ausência proposital do seu guarda-chuva era um benefício, na prática não queria se molhar. 
Faltava coragem para o teste definitivo, no caminho da escola até ali conseguiu se abrigar debaixo dos beirais ou toldos dos comércios do bairro, mas o campinho de futebol era a maior área aberta, ele teria que atravessar andando, pois correr na chuva é errado, você se molha mais rápido.

A lógica de Fabinho era quase uma fórmula matemática:

Quanto maior o guarda-chuva, maior o incômodo de carregar mais um objeto que não cabe na mochila, não cabe dentro da maioria dos armários escolares, e é maior a chance de você perder ele. Se você optar por um guarda-chuva pequeno, menos proteção ele te oferece, logo mais inútil é.

As folhas da árvore começavam a pingar, a chuva estava ficando mais forte, os raios assustavam com seus estrondos, o arrependimento de não ter levado o guarda-chuva só não era maior porque Fabinho sabia onde estava seu guarda-chuva, sabia que assim não perderia ele dessa vez. Ao longo da sua pequena vida Fabinho já tinha perdido muitos guarda-chuvas, o medo de perder mais um obrigou a criar um teoria sobre a inutilidade do guarda-chuva ao longo da sociedade contemporânea. 

 Ao carregar um guarda-chuva os transtornos estão presentes em 100% do tempo, chovendo ou não, é um transtorno tão grande que quando você se livra dele sente um alívio incomparável, tanto que seu subconsciente apaga essa informação da sua memória, isso é involuntário, é o instinto humano.

Mesmo que algumas poucas pessoas do mundo gostam de se torturar lembrando de pegar o guarda-chuva molhado dentro de um balde ou pendurado em qualquer outro lugar, é muito comum esquecer esse objeto inútil em qualquer lugar.

Fabinho começou sua marcha andando numa velocidade rápida mas não correndo, as gotas grossas molhavam muito de uma vez só, seu óculos ficou encharcado atrapalhando a visão. No meio da travessia começou a calcular as consequências de chegar em casa completamente molhado, a essa altura a chuva estava muito intensa, era aquele tipo de chuva que nem mesmo de guarda-chuva dava para encarar.

Na outra ponta do campo tinha uma enorme poça d'água, se esticou todo para pular, mas com a visão comprometida pelo excesso de humildade no rosto, enfiou o pé direito com tudo dentro da poça, depois disso ignorou qualquer teoria e seguiu seu instinto e correu rápido para casa.

Chegando em casa completamente molhado foi tirando o tênis e a meia, logo sua mãe gritou de algum lugar da casa.

— Fabiano Correia!!! Cadê seu guarda-chuva novinho!!!

Ele olhou para dentro procurando sua mãe, mas a cozinha estava desabilitada.

— Tá tudo bem mãe, eu só esqueci meu guarda-chuva.
— O que ?!!!! - a Voz ecoou pela casa, era óbvio que ela estava na parte de cima aquele Confortável sobrado. —Outro guarda-chuva perdido meu filho, eu não aguento mais comprar guarda-chuva para você, não é possível uma coisa dessas.

Fabinho subiu a escada até encontrar sua mãe, ela numa cara espanto, soltando fumaça pelo nariz.

— Você quer pegar uma pneumonia, Fabiano??!!!
— Não mãe, você não entendeu, esqueci o guarda-chuva em casa, não perdi nada.
— Mas você está todo molhado!
— Só que eu sei onde está o meu guarda-chuva 
— Sabe mesmo?! - 
— Sei sim está no meu guarda roupas.
— Então vai lá e pega ele, traz aqui para eu ver.

Fabinho entrou no seu quarto tremendo de medo. E se ele tivesse levado para escola? E se o subconsciente tivesse apagado essa informação, ele perderá outro guarda-chuva? De novo?

Abriu o guarda-roupa e não viu nada além de roupas, procurou nas gavetas, vasculhou no fundo e nada.
Pensou em pular pela janela e fugir de casa para não enfrentar a fúria de sua mãe, procurou pela segunda vez e nada, realmente perderá o outro guarda-chuva.

— Não encontrou?! - falou a mãe.
— Eu tinha certeza que guardei aqui, eu não perdi outro guarda-chuva, alguém mexeu nas minhas coisas.
— Hoje de manhã coloquei ele dentro da sua mochila.
— O que?
Fabinho foi correndo do quarto para o corredor, desceu a escada e avançou na mochila molhada. Abriu o zíper e viu aquela coisa escura toda enfiada apertada entre os livros, o tempo todo esteve com ele desde que saiu de casa pela manhã. Isso derruba sua teoria, isso mudo tudo, nada mais fazia sentido ele tinha sido traído pelas próprias idéias.

— Está aí! Agora vai tirar essa roupa molhada e tomar um banho, hoje você está de castigo sem vídeo game.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Solidão Masculina

Cedo ou tarde todo homem enfrenta a solidão.

É implícito a uma das características masculinas; óbvio que todo humano passa por isso, mas nós homens temos a obrigação de vencer o mundo para alimentar nossos dependentes. Temos que lutar pela sobrevivência. A solidão precisa ser só mais um desafio, ou uma companheira. Meu pai por exemplo, teve um episódio onde foi forçado a conviver com  a solidão, quando voltava de viagem de férias; o automóvel derrapou na pista molhada e caiu na ribanceira, no dia seguinte a polícia só encontrou o corpo da minha mãe no carro todo amassado,  ele ficou 3 dias perdido na mata fechada até encontrar ajuda, três longos BBdias na  mais completa solidão.
Meu irmão mais novo passou por esse momento quando entrou na faculdade durante a pandemia, como a faculdade era em outro estado ele teve que morar sozinho numa república para estudante, que estava praticamente desabitada, ele passou um semestre sozinho. Às noites eram longas e intermináveis; ele conta que a casa foi invadida enquanto ele dormia, por sorte ele acordou, subiu no forro e ficou ali apoiado nos caibros enquanto os bandidos procuravam por algo de valor, passou uma noite toda ali, aqueles 6 meses foram de terríveis solidão.
Esses momentos podem se repetir ao longo da vida, sua intensidade pode variar, mas quando acontece alguma coisa te muda por dentro, como se fosse um rito de passagem.


Eu já sabia como era esse sentimento, já tinha passado por isso, mais ou menos quando eu tinha lá meus 13 ou 14 anos. Estávamos num sítio no interior de São Paulo para passar as festas de fim de ano. Por algum motivo os adultos saíram deixando somente os jovens adolescentes sozinhos, eu, minha irmã e a minha prima Jasmin.
Estava procurando alguma coisa para assistir na televisão, minha irmã e a Jasmin estavam no quarto fazendo qualquer coisa que garotas de 15 anos fazem sozinhas; Jasmin estava diferente naquele verão, desde ela tinha chegado eu não conseguia tirar os olhos dela, foi a primeira vez que percebi ela como mulher, ela estava mais alta, defina, seu rosto esbanjava a beleza da juventude, estava completamente apaixonado por ela, mas como sempre, ela só dava atenção para os garotos mais velhos, assim como minha irmã. Lembro que elas se referiam a mim como se eu fosse uma criança, tudo bem que eu era menor do que elas naquele ano.
Eu estava lutando com a antena em cima da TV para conseguir assistir um filme que estava passando, elas no quarto conversando.
Quando escutei um grito em conjunto, fui correndo para o quarto, minha vontade de impressionar Jasmin tinha me encorajado a fazer qualquer coisa por ela, no caminho para o quarto peguei qualquer coisa que encontrei que poderia ser usada como arma. Com um martelo enferrujado em mão entrei rapidamente no quarto, pelo grito imaginei que fosse algum bandido.
Mas quando eu entrei no quarto vi as duas em cima de uma cadeira num canto do quarto e mais ninguém além delas.

Às janelas do quarto fechadas, não havia nenhuma ameaça que justificasse os gritos. 
— Aiii Uma barata voadora alí!!! Mata! Mata ela!

Gritou minha irmã do outro lado do quarto apontando para uma parede lisa branca sem nada, uma voz estridente carregada de medo.

— Vai!!! Marquinhos!!! Mata!! Ela tá bem ali!! 
Falou Jasmin, tentando me encorajar, ela usou meu nome em diminutivo, aquilo me irritava muito, mas vindo dela até poderia ser um apelido carinhoso, até assustada ela era linda.

Eu me aproximei da parede e vi o monstro asqueroso no chão, ela deu um sobre vôo do chão para a parede, isso fez as meninas gritarem.

— Salva a gente Marquinhos!!! 
Esse o grito encorajador de Jasmin, foi o que me encorajou a fazer a pior besteira da minha vida, quando eu gritei em seguida.

— Pra fora do quarto às duas e fecha a porta para a barata não escapar.

Num instante ela sumiram, não entendi por que não tinham feito isso antes, essa seria a primeira coisa que eu faria, mas agora estava ali, sozinho, na mais completa solidão, enfrentando um dos meus piores medos. Dessa vez eu não poderia fugir nem pedir ajuda pra ninguém, minha paixão adolescente me encorajava a continuar com aquela loucura, enfrentar um dos mais nojentos monstros da natureza.

Meu medo de barata foi algo herdado da minha tia, durante a minha infância muitas vezes ela foi nossa babá, ela tinha um medo de insetos além da compreensão, moscas, pernilongos e formigas faziam ela gritar, qualquer coisa que fosse maior do que isso ela entrava em pânico, num verão uma dessas batatas voadoras pousou sobre sua mão durante uma refeição ela desmaiou batendo a cabeça em cima da mesa, essa imagem assustadora me perturbou durante muito tempo, eu pensava que as baratas tinham ferrão e sua picada fazia um humano desmaiar.

Mas queria muito impressionar Jasmin, estava me segurando com todas as forças para ficar alí, em qualquer outro cenário eu já teria corrido para longe. 
Olhei em volta para ter certeza que estava sozinho, completamente só, tudo dependia de mim, não importa o que iria acontecer, eu tinha que matar aquele inseto maldito, não tinha pra onde correr ou nunca experimentaria um beijo dos lábios de Jasmin.
Larguei lentamente o martelo numa cama, com movimentos sutis tirei meu tênis, empunhei bem na minha mão direita, me aproximei muito devagar em direção a parede, aquele ponto marrom escuro aumentava a cada passo, por alguns instantes desisti, me vi saindo como covarde daquele quarto derrotado pelos meus medos. 
Numa distância segura ergui lentamente a mão direita, estiquei o mais alto o quanto eu pude levantar, segurei a respiração, a imagem da minha tia medrosa veio à mente me lembrando dos perigos de se enfrentar forças desconhecidas.
Fiquei observando o inseto, fazendo pequenos movimentos nojentos, dando pequenos passos com aquelas malditas patas. Então resolvi contar mentalmente até três, até 3 e depois um já. 
1… ergui o braço mais alto ainda tomei ar.
2… seguirei meu tênis com toda minha força.

E quando iria para o próximo número…

— haaa ! Aaaaa!!!
A barata deu um salto me assustando, o grito foi inevitável, estava tremendo de medo.

Ela vôo até uma outra parede. Recuperei o fôlego e decidi reavaliar minha estratégia, busquei dentro de mim todo ódio que poderia sentir, era para ser uma coisa simples, meu medo me deixava vulnerável, fraco, como poderia assumir um relacionamento sério com minha futura esposa, e tinha que ser ela, meus pensamentos já não eram só meus, era só Jasmin, quase que involuntariamente só pensava nela, de alguma forma tinha uma barata no meu caminho para alcançar seu coração, um monstro asqueroso e eu, a terrível solidão me assolando.

A estratégia do ódio estava dando certo, o medo estava cedendo lugar ao ódio, igualzinho como o Darth Vader tinha explicado que aconteceria, medo, ódio, raiva, adicione paixão e teremos a combinação mais perigosa do mundo.

Enchi os pulmões com todo ar daquela sala, dois passos firmes na direção dela, joguei toda força do meu braço contra a parede, o ruído do tênis se estatelado na parede ecoou pelo quarto. Como sempre minha falta de experiência se encontrou com a minha falta de sorte, elas deram as mão e me fizeram errar a barata. Ela saiu andando parede acima, cambaleando como uma bêbada, tentou bater suas asas e não conseguiu, ao invés disso caiu como uma pedra no chão.

Foi aí que percebi a vantagem de usar um tênis N° 40, meu primeiro ataque não foi um completo erro, causei algum tipo de dano estrutural naquele inseto voador.

Finalizei com uma bela pisada generosa de perna esquerda, agora o trabalho estava pronto.

Gritei pelo nome das duas, quando elas entraram no quarto eu mostrei o cadáver da barata achatado no chão.
Aguardei minha recompensa em forma de abraços e beijos.

— Eeca!! Que nojo Marquinhos, limpa essa sugeira.
Disse minha irmã com uma cara de nojo, Jasmin estava sinalizando como se fosse vomitar fingindo enfiar o dedo na goela.

Meu sentimento de tarefa concluída me deixava orgulhoso, mas a cara de nojo de Jasmin derrubava esse sentimento, não aconteceu o que esperava, tinha salvado uma donzela em perigo, fiquei com todo ônus dos perigos de matar aquele monstro, enfrentei meu pior medo na mais completa solidão e o que recebi em troca foi uma expressão de.nojo, depois de remover o cadáver deixei as duas sozinhas no quarto, voltei para a televisão.

Mas ali eu já não era mais o mesmo menino, alguma coisa tinha de diferente dentro de mim, como tivesse trocado de personalidade, como se tivesse outra alma, eu tinha visto a face da da solidão pela primeira vez, e superei sozinho, mesmo sem a recompensa esperada.
A vida parecia não ter a mesmas cor, fui lá para fora e fiquei sentado na varanda pensando no que acabará de acontecer.