quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Desenvolvimento Pessoal 1

 É na dificuldade que a gente se encontra. É no processo que a gente se desenvolve.


Era isso que dizia a tatuagem na perna dele, não sei bem o que ele quis dizer tatuando isso na panturrilha.


O cara deve ser um jogador de futebol, ou um adepto a leitura de autoajuda. 


O que esse cara entende por processo? 

Será que é uma autorreferência à própria tatuagem? 

Será que é mais difícil tatuar aquela parte da perna? 

Talvez ele mesmo tenha feito sua própria tatuagem, por isso a dificuldade, o significado é muito mais ambíguo do que parece.


É claro que na dificuldade, o fulano qualquer se vê diante se uma encruzilhada, ou ele desiste e volta pra trás, ou encara, ao enfrentar esses problemas ele pode ter sucesso ou fracassar, é óbvio, diante de tantas opções pior caminho é ficar parado e não fazer nada, mesmo parado o mundo a sua volta está se movendo e vai te carregar adiante. Não decidir acaba sendo uma escolha.


De qualquer forma a dificuldade leva um pedaço seu, Lima uma aresta da sua vida, às vezes um pouco mais do que deveria. Dói.

Logo no final de um período difícil você já não é o mesmo. 

Claro, essa é a vida tentando te forçar a ser alguma coisa que você não é para ser comum aos outros que já passaram por isso.

Talvez você se encontre diferente, sem um braço, com o senso de humor diferente, menos tolerante, o processo amadureceu o fulano.


Não, acho que ele deve ser jogador de futebol, por isso tatuou na perna, pela idade não é profissional, deve ser aqueles jogadores de fim de semana que jogam todos os fins de semana….


sábado, 14 de janeiro de 2023

Perguntas?

… Já está chegando a hora de ir trabalhar.
— é mesmo por que?

— Por quê?! Esse é o meu horário.
— Não é porque você tem que ir agora. Porquê trabalhar?
— porque sim, por ser necessário, tenho família, é o meu dever, se eu não fizer isso nem sei…
— O que?
— Não sei, alguma coisa eu teria que fazer para gerar uma renda.
— Se não fosse sua família você não teria que ir trabalhar agora?
— Com ou sem família é essa remuneração que me mantém. Se eu fosse sozinho, sem família talvez teria outras opções na manga.
— Então você só faz isso por dinheiro?
— Sim, ninguém trabalha de graça.
— Então você não gosta do seu trabalho?
— Gosto o suficiente para fazer isso todos os dias pelo salário que me pagam.
— Porque você não faz outra coisa que te dê mais dinheiro? Já que é pelo salário você pode fazer qualquer outra coisa por dinheiro, sei lá, talvez vender sua dignidade?
— Não, isso nem tem valor de mercado.
— Sua dignidade não vale nada?
— Claro que vale alguma coisa, mas quem vai dar esse valor para uma coisa abstrata? Ou um sentimento? Qual o preço de se sentir feliz? Não dá para vender essas coisas como dignidade.
— Todo tem um preço, se vale alguma coisa dá pra comprar.

— Pra que me encher saco com essas perguntas óbvias, sendo que você sabe a resposta da maioria delas.
— Perguntas nunca são óbvias, talvez as respostas sejam, isso não significa que elas não precisam ser feitas.
— Tem perguntas que não devem ser feitas.
— Tem perguntas, que não devem ser feitas?
— Você acha que não?
— É óbvio que não, o mundo a sua volta existe da maneira que está porque alguém fez uma pergunta, uma pergunta burra, estúpida, inocente, óbvia, irritante, irrelevante e fácil, perguntas que nos trouxeram até aqui esse momento único na era da humanidade. Perguntas existem e pronto. Esse é o fato que nos diferencia dos outros animais. Perguntas profanas e absurdas que promoveram rupturas, boas e ruins, mortes e salvação, pecado e absorvição, corrigindo ou condenando, passado, futuro, pessoas e nações, o prazer da resposta é todo seu, minhas perguntas não são óbvias, você pode responder da maneira que quiser, o limite é todo seu.
— Tudo bem, ficou bem claro agora.
— As perguntas são libertadoras, elas são os cavaleiros da curiosidade, mensageiros da criatividade.
— Muito poético.
— Percebe que concordamos, então vou lhe repetir uma pergunta, vamos tentar recomeçar. Porque você trabalha tanto? 

— Para você enfiar essa resposta toda no meio do seu Cú e parar de me encher o saco.

Assim cada um seguiu seu caminho.

 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

A inutilidade do guarda-chuva na Sociedade contemporânea

Guarda-chuva é um dos objetos mais inútil, parece óbvio seu propósito, porém todos os ônus de carregar um guarda-chuva não compensam seu pequeno benefício.

Fabinho sabia muito bem disso, ele que desenvolveu essa lógica fantástica. Qualquer guarda-chuva te oferece meia proteção, as pernas sempre ficam molhadas, dependendo do tipo de chuva só a cabeça fica seca, sem contar que se for uma tempestade com ventos acima de 30 km/h seu guarda-chuva vira do avesso. (quem se arrisca sair numa tempestade?)

Debaixo de uma árvore observando a chuva molhando o campinho de futebol; onde passará por algumas frustrações, não é fácil ser péssimo no esporte em que todo mundo joga razoavelmente bem. Fabinho acumulava coragem para encarar a chuva, sentia um tipo de controvérsia científica, na teoria a ausência proposital do seu guarda-chuva era um benefício, na prática não queria se molhar. 
Faltava coragem para o teste definitivo, no caminho da escola até ali conseguiu se abrigar debaixo dos beirais ou toldos dos comércios do bairro, mas o campinho de futebol era a maior área aberta, ele teria que atravessar andando, pois correr na chuva é errado, você se molha mais rápido.

A lógica de Fabinho era quase uma fórmula matemática:

Quanto maior o guarda-chuva, maior o incômodo de carregar mais um objeto que não cabe na mochila, não cabe dentro da maioria dos armários escolares, e é maior a chance de você perder ele. Se você optar por um guarda-chuva pequeno, menos proteção ele te oferece, logo mais inútil é.

As folhas da árvore começavam a pingar, a chuva estava ficando mais forte, os raios assustavam com seus estrondos, o arrependimento de não ter levado o guarda-chuva só não era maior porque Fabinho sabia onde estava seu guarda-chuva, sabia que assim não perderia ele dessa vez. Ao longo da sua pequena vida Fabinho já tinha perdido muitos guarda-chuvas, o medo de perder mais um obrigou a criar um teoria sobre a inutilidade do guarda-chuva ao longo da sociedade contemporânea. 

 Ao carregar um guarda-chuva os transtornos estão presentes em 100% do tempo, chovendo ou não, é um transtorno tão grande que quando você se livra dele sente um alívio incomparável, tanto que seu subconsciente apaga essa informação da sua memória, isso é involuntário, é o instinto humano.

Mesmo que algumas poucas pessoas do mundo gostam de se torturar lembrando de pegar o guarda-chuva molhado dentro de um balde ou pendurado em qualquer outro lugar, é muito comum esquecer esse objeto inútil em qualquer lugar.

Fabinho começou sua marcha andando numa velocidade rápida mas não correndo, as gotas grossas molhavam muito de uma vez só, seu óculos ficou encharcado atrapalhando a visão. No meio da travessia começou a calcular as consequências de chegar em casa completamente molhado, a essa altura a chuva estava muito intensa, era aquele tipo de chuva que nem mesmo de guarda-chuva dava para encarar.

Na outra ponta do campo tinha uma enorme poça d'água, se esticou todo para pular, mas com a visão comprometida pelo excesso de humildade no rosto, enfiou o pé direito com tudo dentro da poça, depois disso ignorou qualquer teoria e seguiu seu instinto e correu rápido para casa.

Chegando em casa completamente molhado foi tirando o tênis e a meia, logo sua mãe gritou de algum lugar da casa.

— Fabiano Correia!!! Cadê seu guarda-chuva novinho!!!

Ele olhou para dentro procurando sua mãe, mas a cozinha estava desabilitada.

— Tá tudo bem mãe, eu só esqueci meu guarda-chuva.
— O que ?!!!! - a Voz ecoou pela casa, era óbvio que ela estava na parte de cima aquele Confortável sobrado. —Outro guarda-chuva perdido meu filho, eu não aguento mais comprar guarda-chuva para você, não é possível uma coisa dessas.

Fabinho subiu a escada até encontrar sua mãe, ela numa cara espanto, soltando fumaça pelo nariz.

— Você quer pegar uma pneumonia, Fabiano??!!!
— Não mãe, você não entendeu, esqueci o guarda-chuva em casa, não perdi nada.
— Mas você está todo molhado!
— Só que eu sei onde está o meu guarda-chuva 
— Sabe mesmo?! - 
— Sei sim está no meu guarda roupas.
— Então vai lá e pega ele, traz aqui para eu ver.

Fabinho entrou no seu quarto tremendo de medo. E se ele tivesse levado para escola? E se o subconsciente tivesse apagado essa informação, ele perderá outro guarda-chuva? De novo?

Abriu o guarda-roupa e não viu nada além de roupas, procurou nas gavetas, vasculhou no fundo e nada.
Pensou em pular pela janela e fugir de casa para não enfrentar a fúria de sua mãe, procurou pela segunda vez e nada, realmente perderá o outro guarda-chuva.

— Não encontrou?! - falou a mãe.
— Eu tinha certeza que guardei aqui, eu não perdi outro guarda-chuva, alguém mexeu nas minhas coisas.
— Hoje de manhã coloquei ele dentro da sua mochila.
— O que?
Fabinho foi correndo do quarto para o corredor, desceu a escada e avançou na mochila molhada. Abriu o zíper e viu aquela coisa escura toda enfiada apertada entre os livros, o tempo todo esteve com ele desde que saiu de casa pela manhã. Isso derruba sua teoria, isso mudo tudo, nada mais fazia sentido ele tinha sido traído pelas próprias idéias.

— Está aí! Agora vai tirar essa roupa molhada e tomar um banho, hoje você está de castigo sem vídeo game.