segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Dormindo no Barco

Depois de um longo dia na beira do mar.

O mestre nos disse “preparem esse barco, vamos o outro lado do lago”.

O dia foi magnífico; ele tinha falado com a multidão o tempo todo, nos explicou sobre a história do semeador, que eu ainda estava digerindo e vimos diversos milagres acontecendo.

É uma linda tarde, o sol sumindo no horizonte, o céu escurecendo em tons coloridos, nenhuma nuvem, tudo perfeito para navegação, como quando pescavamos na madrugada.

Alguns outros barcos nos acompanharam, mas já estava escurecendo logo eles sumiram e ficamos  sozinhos no mar, iluminados pelas estrelas. Se tudo ser certo chegaremos perto do amanhecer na outra margem do lago.

Ele está cansado, falou o dia inteiro debaixo do sol, as vezes me pergunto da onde ele tira tanta energia? Como ele pensa em tantas coisas? Como tem resposta para tudo?.

Me encostei numa posição confortável para tirar um cochilo, João está atento observando o mar.

— O que foi? — perguntei.

— Você está sentindo esse vento gelado?,

— Normal, estamos no mar, está de noite.

— Não sei, mas o vento está muito forte.

João acabou de dizer essas palavras, sentimos a noite ficar mais escura, olhamos para o céu é não vimos mais as constelações nem mesmo a lua. Em pouco tempo o vento começou a ficar mais gelado e o barco a balançar com solavancos cada vez mais fortes.

A escuridão era quase total, o barco começava a balançar mais forte.

— já estamos em alto mar, as ondas estão ficando forte.

— Pois é João tenho quase certeza que estamos entrando numa tempestade.

Acabando de dizer isso, escutamos um trovão forte estremecer as tábuas do barco, vários raios nos iluminaram como um flash numa foto no escuro (se soubéssemos o que um Flash).

Em pouco tempo a chuva começou a despencar do céu, as gotas batiam com tanta violência na pele que dava para ouvir o estalo.

Os raios eram constantes mesmo sem os trovões, era difícil trabalhar assim pois a cada raio ficávamos cegos por alguns segundos.

O barco chaqualha tanto que escutamos suas tabuas rangerem; um raio em especial iluminou uma parede de água vindo em nossa direção, assustado me joguei no chão e sentimos o tapa de água, como se tivessem atravessando uma cachoeira. Depois disso ficou difícil ficar deitado com o rosto no chão, tinha uma piscina no convés, foi quando eu me senti mais leve, um outro raio iluminou, vi João agarrado no mastro como se tivesse voando, quando olhei para proa e vi o oceano lá embaixo a uns 10 ou 5 metros, mais uns raios iluminaram por um instante a enorme onda em que o nosso pequeno barco estava, bem no topo dela, a descida for tão desconfortável que me deu cólicas, por alguns momentos pensei ter saído do barco, porque não consegui me agarrar em nada.

Cai de costa na chão, vi alguém em vão tirando a água do convés gritando alguma coisa, o som da tempestade no mar era assustador, pelo balançar do barco sabíamos que a qualquer momento as tábuas poderia se romper em vários pedaços.

Quando vi a figura de um homem deitado dormindo com a cabeça numa almofada improvisada, dormia um sono pesado, estava todo molhado. Pensei “como consegue dormir com esse barulho?”.

Então decidi que iria acordá lo, se outra onda gigante daquela bater na gente esse barco quebra, então estaremos à deriva no mar.

Caminhar era impossível, muitas ondas pequenas se chocavam nas laterais do barco, muitos objetos boiando no convés me derrubavam toda vez que tentei ficar de pé.

Escutei um ruído de madeira quebrando, no meio de todos os barulhos reconheci voz de João gritando de desespero, eu nunca tinha presenciado o mar tão agitado dessa forma, não dentro de um barco, dentro da tempestade, nunca tinha ouvido homens clamarem por suas vidas.

Fui engatinhando como uma criança, até ele, me agarrei em seu corpo até o barco votar da sua inclinação, outro solavanco e mais água no convés, agora estava no meio da canela, fiquei tão assustado, nunca estive num naufrágio.

Temendo pela morte gritei o mais alto e forte que pude, balancei-o até que ele acordasse.

Ele se levantou assustado, gritou.

— O que foi?

Na quela altura da tempestade minha resposta foi uma indignação com sua pergunta

— Como assim “o que foi?”. Estamos afundando! Vamos todos morrer! Você está dormindo e nem se importa com agente!

Depois de dizer isso um raio trouxe um clarão, vi seus olhos inchados de sono, ele balançava a cabeça em forma de reprovação.

Então levantou seus braços, deu as costas pra mim, mesmo com o barco balançando ele ficou em pé sem apoio.

Apesar dos ruídos da tempestade, nossos gritos de desespero, e os trovões. A sua voz soou nitidamente.

— Mar ! Tempestade! Raios! Trovões!, Parem agora! Fiquem quietos!

No mesmo o instante o barco ficou imóvel como se estivesse ancorado em terra firme. As estrelas começaram a surgir uma a uma, por fim a lua, iluminando o mar até o horizonte, a tempestade e as ondas desapareceram quase que instantaneamente, nem mesmo o vento era visível na pequena bandeira ponta do mastro.

— Que absurdo a fé de vocês, é quase nula! Vocês pensaram que iam morrer? Homens de pequena fé.

Ele ainda pegou sua almofada encharcada, espremeu um pouco depois arrumou, deitou na mesma posição, e logo voltou a dormir.

Nunca tinha visto o mar tão calmo, parado, sem nem uma brisa.

Era uma noite muito agradável, ficamos tirando a água do convés, não conseguimos dormir espantado com esse homem, que até às forças mais brutais da natureza o obedece.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pensando

O que você pensa que eu sou?
Se não sou o que pensou.

Pensou que você o que?
O que que você,... você pensa?
Se pensa sou que você é?
Logo não existo no seu pensar.
Se você pensa que eu sou o que você pensa que você é.

Então você pensa que sou outro eu que não sou eu, mas que para você é, mas não sou eu de verdade.

Se isso acontece é porque você pensou que eu não sou quem eu sou mesmo, mas viu em mim quem você pensou, que não sou o que você pensou que eu sou.

Alguma coisa está errada, para eu pensar que você pensou que eu sou outra pessoa que não sou eu.

Quantas outras pessoas pensam como você que pensam errado sobre mim?

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Sem Nada

Como é bom não carregar um peso.

Principalmente se o peso em questão estava te machucando; principalmente quando você joga bem longe para não se lembrar de como essa carga era. Mesmo não reconhecendo a quantidade de responsabilidade que eles tem sobre esse peso, me livrei logo que entendi que era uma questão de sobrevivência.

Não importa se é justo ou necessário, não importa nada depois que se sente o alívio.

Dependendo do peso você só retira algumas partes, porque assim fica mais leve, a agradável sensação de conforto é momentânea, você precisa tirar tudo, tudo mesmo.

Eu sei que é difícil: é incoveniente, é um saco, você já fez sua parte, não depende de você.

Mas se você for esperar pelos outros, por mais óbvio que isso seja, sempre vai ficar com um pedaço daquele peso, peso inútil, ou confortável.

Têm pesos que são tão delicado que você nem lembrava que estava levando, esta escondido em lugares que não queremos voltar, num cantinho escuro no sótão empoeirado, dentro de uma caixa velha, dentro duma lata enferrujada, embrulhada num saco de pão, está lá, todo mundo tem um peso desses.

A escolha é sua, ou você esquece e vive assim carregando alguma coisa, mesmo que pequena e leve, ou você joga fora de vez! Faz aquela faxina geral e coloca as coisas no lugar.