quarta-feira, 8 de julho de 2026

Livre?

Caminhando entre os dois dos seus serviços nos quais trabalha diariamente, percebeu que faltava pouco para se livrar de todas as suas dívidas.
O financiamento da moto, a dívida do celular, o empréstimo que teve que pegar para comprar o videogame, a franquia do seguro do carro do seu cunhado que foi parcelada no cartão de crédito do seu pai e, por último, as roupas — suas roupas, que a vestiam muito bem ao longo de um ano.
Tinha muita sorte de não colapsar por trabalhar em dois lugares fazendo coisas tão diferentes; mais sorte ainda de conseguir um trabalho perto do outro. Em compensação, o azar de ter destruído sua moto nova na traseira do carro do seu cunhado; os destroços da moto estão na garagem de casa, aguardando uma folga no orçamento. A moto sempre a cumprimentava quando ela passava, como quem diz: “Oi, tudo bem? Estou aqui te esperando”.
Um quarteirão inteiro era o que separava os dois empregos. Oficialmente, somente o primeiro era o trabalho, com registro em carteira; o segundo serviço era por fora, alternativo, clandestino, livre de imposto — também era a função que mais dava prazer, apesar de ser fisicamente mais cansativa.
Enquanto cruzava o caminho de um quarteirão entre as duas empresas, leu uma frase escrita em um muro desses de terrenos abandonados. A frase parecia ter sido escrita por uma criança, pois a letra não parecia uniforme e era difícil de decifrar. A frase dizia:
“Desculpe se pareço distraído, meio calado. É que o mundo está mais pesado do que de costume, sinto meus ombros arderem, tudo parece ser pior do que é.
Só me deixe quieto enquanto arrumo a carga em minhas costas.
Isso não é uma reclamação, o seu mundo também está aqui em cima, só preciso descansar.”
A primeira vez que reparou na frase não a leu inteira, nem sabia há quanto tempo ela estava ali. Leu metade da primeira frase, até se esqueceu disso. Durante a semana passava ali todos os dias; aquela caminhada de 10 minutos era o único momento em que ela não estava fazendo nada, nada além de andar. Com a mente livre, aquele quarteirão se tornara um limbo psicológico: nada do que ela pudesse fazer durante a caminhada alteraria qualquer coisa em sua vida (exceto quando envolvia suas funções motoras).
Ali ela podia pensar em qualquer coisa, desde que continuasse andando. Às vezes sua mente divagava para longe, por lugares que não existem. Aquele limbo era um momento de paz de espírito.
Aos poucos aquela frase foi tomando conta da sua vida. As primeiras palavras ficaram presas no seu subconsciente e ela as repetia automaticamente; quando deu por si, não sabia de onde vinha a ideia: “Desculpe se pareço distraído, meio calado. É que o mundo está mais pesado do que de costume".
Pensou que fosse uma música, mas a frase não tinha rima, nem métrica. Passando novamente pelo muro, viu a frase e decidiu parar e lê-la por inteiro.
Alguma coisa não se encaixou na lógica do seu dia a dia. Perguntas espontâneas surgiram tentando decifrar aquele momento. Talvez não tivesse entendido; leu novamente.
Primeiro pensou em quão grande era aquela frase, quanto tempo demorou para fazer aquilo — não era uma frase rápida de outdoor. Refletiu sobre o caráter de quem teria feito isso; principalmente, por que escrever uma frase tão grande?
Tinha outras questões gritando dentro da sua alma.
— Será que trabalhar em dois empregos não está sendo demais? Sair de casa antes das 5 da manhã e voltar na primeira hora do dia seguinte... talvez seja um exagero?
Pensou que talvez não estivesse vivendo, como se tivesse sua realidade roubada, como se fosse um avatar preso em um jogo sádico, em uma fase muito difícil. Sentiu-se distante da sua rotina, a mesma que ela, convenientemente, tinha escolhido para si — a rotina que ainda permitia pagar quase todas as suas contas. Nunca havia sentido isso antes; era como se a vida tivesse um peso, como se pudesse sentir toda a tonelada de ar da atmosfera sobre sua cabeça.
De repente, nada mais era sobre ela ou as coisas que ela estava tentando pagar. Era possível ter uma visão da sua própria vida pelo lado de fora, numa análise em que não se reconhecia. Não sabia onde isso começava, nem sabia como parar.
Suas pernas começaram a cansar de ficar paradas em frente ao muro por tanto tempo. Involuntariamente, começou a se mover em direção ao seu destino; mesmo querendo ficar, seu corpo queria a rotina, o conforto diário de repetir tudo de novo.
Andando contra a sua vontade, olhou o horário em seu celular: deveria apressar o passo para chegar dentro do horário previsto. A frase ainda parecia um enigma, não sabia bem se tinha compreendido o que estava nas entrelinhas. Apesar do choque, continuou seguindo no caminho; não sabia se estava certa disso, só continuou sentindo coisas que nunca antes sentira

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